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Fontes

Energia nuclear

  • 0,03 morte por terawatt-horacontando acidentes e poluição do ar, é a estimativa para a energia nuclear reunida pelo Our World in Data.1
  • De 5,1 a 6,4 gramas de gás carbônico equivalente por quilowatt-horasão as emissões no ciclo de vida da nuclear no estudo da UNECE; o IPCC traz um valor do meio de 12.23
  • De 0,52 a 1,02 metro quadrado-ano por megawatt-horaé a terra ocupada no ciclo de vida da nuclear no estudo da UNECE, entre as menores das tecnologias avaliadas.4

As próximas seções explicam, desde o começo, o que esses números querem dizer.

Como funciona

Usinas nucleares de Angra dos Reis à beira-mar
Usinas Angra 1 e Angra 2, em Angra dos Reis (RJ). Foto: Sturm, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons.

Tudo é feito de átomos. Alguns átomos, como os do urânio, podem ser divididos em dois; isso se chama fissão e libera muita energia, na forma de calor. Na usina nuclear, esse calor aquece água, que vira vapor em alta pressão; o vapor gira as turbinas, que acionam os geradores.5 É como uma usina térmica comum, só que o calor vem do urânio, e não da queima de um combustível.

As usinas brasileiras, Angra 1 e Angra 2, usam reatores a água pressurizada.6

Segurança

O número. Para a energia nuclear, a estimativa é de 0,03 morte por terawatt-hora de eletricidade, contando acidentes e poluição do ar. Um terawatt-hora é um bilhão de quilowatts-hora. Na mesma base, a solar tem 0,019, a eólica 0,035, a hidrelétrica 1,3, o gás natural 2,821, o óleo 18,43 e o carvão 24,62.1 Nesta base, a estimativa da solar é um pouco menor; nuclear, solar e eólica têm taxas baixas e próximas entre si, muito abaixo das fontes que queimam combustível.1

Chernobyl. Segundo a OMS, em 1986, dos 600 trabalhadores que estavam na usina na madrugada do acidente, 134 receberam doses muito altas de radiação e 28 morreram nos primeiros três meses. Houve mais de 6.000 casos de câncer de tireoide entre quem era criança ou adolescente nas regiões afetadas, 15 deles fatais até 2005. Para toda a Europa, uma agência ligada à OMS projeta até 16.000 mortes por câncer até 2065; isso é estimativa de modelo, não contagem.7

A comparação com a hidrelétrica. Um estudo de 2016 reuniu os acidentes de energia de 1950 a 2014. As hidrelétricas tiveram 26 acidentes e 177.665 mortes, quase todas num só evento: o rompimento da barragem de Shimantan, na China, em 1975, com 171.000 mortes. A nuclear teve 172 acidentes e 4.803 mortes, das quais 4.056 atribuídas a Chernobyl, boa parte por estimativa, e 573 a Fukushima. O acidente nuclear típico, nesse levantamento, não matou ninguém: a mediana é zero.8

Goiânia não foi um acidente de usina. Em 1987, uma fonte de césio-137 de um aparelho de radioterapia, abandonado numa clínica em Goiânia, foi aberta. Quatro pessoas morreram, 28 tiveram queimaduras por radiação e 249 foram contaminadas, entre cerca de 112.000 monitoradas; sete casas foram demolidas.9 Foi um acidente radiológico com uma fonte médica, sem reator e sem combustível nuclear. No levantamento da agência internacional de energia atômica sobre acidentes fatais com radiação de 1945 a 1987, em instalações nucleares e em atividades industriais, de pesquisa e médicas (sem contar eventos com pacientes), houve 17 eventos e 59 mortes, e só um, Chernobyl, em usina de energia.9

Emissões

A usina nuclear não queima nada e não emite gases de efeito estufa na operação.5 A maior parte das emissões de ciclo de vida ocorre na cadeia do combustível: mineração, conversão, enriquecimento e fabricação.2

A UNECE, a comissão econômica da ONU para a Europa, achou de 5,1 a 6,4 gramas de gás carbônico equivalente por quilowatt-hora, com média mundial de 5,5. O estudo considera usinas de 60 anos de vida e enriquecimento só pelo método de centrifugação, que gasta menos energia; isso puxa o valor para baixo.2 O IPCC, que reúne estudos publicados de épocas e métodos diferentes, traz valores de 3,7 a 110, com valor do meio de 12.3 Na mesma comparação do IPCC, o valor do meio é de 820 para o carvão, 490 para o gás natural, 24 para a hidrelétrica, 48 para a solar em usinas e 11 para a eólica em terra.3

Espaço

O urânio concentra muita energia em pouco material; por isso a área minerada por quilowatt-hora é pequena, e as usinas ocupam pouco terreno.10 No estudo da UNECE, a nuclear ocupa de 0,52 a 1,02 metro quadrado-ano por megawatt-hora no ciclo de vida. Um metro quadrado-ano é um metro quadrado ocupado durante um ano. Na mesma medida, a eólica em terra fica entre 0,6 e 1,2, o gás natural entre 0,7 e 5,8 e o carvão entre 10,3 e 26,6.4

Outros impactos

  • Rejeito. O combustível usado continua radioativo por muito tempo e precisa ser guardado com segurança.5 Em Angra, ele fica em piscinas dentro das usinas e numa unidade de armazenamento a seco, autorizada em 2025 a operar por 40 anos. Os rejeitos de baixo e médio nível ficam em depósitos no próprio local até existir um depósito final licenciado.11
  • Descomissionamento. Desmontar uma usina nuclear pode levar décadas. A retirada do combustível costuma exigir cerca de 5 anos; a preparação ocorre ao mesmo tempo e geralmente dura de 7 a 9 anos; a desmontagem e a demolição podem passar de 20 anos.12 A Eletronuclear tem um fundo para isso.11
  • Água. As usinas térmicas, inclusive a nuclear, usam muita água para resfriamento.12

A cadeia do combustível

Urânio não vira eletricidade do jeito que sai do chão. Entre a mina e o reator há várias etapas, cada uma uma indústria diferente:13

1. Mineração e beneficiamento: a rocha é triturada e tratada até virar um pó amarelo, o concentrado de urânio. No Brasil, isso é feito em Caetité, na Bahia, a única mina de urânio em atividade no país.1314 2. Conversão: o concentrado vira um gás, o hexafluoreto de urânio, único estado em que pode ser enriquecido. Essa etapa ainda não é feita no Brasil.13 3. Enriquecimento: aumenta a proporção do tipo de urânio que sustenta a reação, de 0,7%, como é na natureza, para até 5%. O Brasil usa o método de ultracentrifugação, na fábrica da INB em Resende, no Rio de Janeiro.13 4. Fabricação do combustível: o urânio vira pastilhas, que vão em varetas montadas no elemento combustível, também em Resende.13

Mina Cachoeira, unidade de concentrado de urânio da INB em Caetité, na Bahia
Etapa 1: mineração em Caetité (BA). Foto: INB.
Técnicos diante de equipamentos industriais da área de enriquecimento da INB em Resende
Etapa 3: enriquecimento em Resende (RJ). Foto: INB.
Vista aérea da Fábrica de Combustível Nuclear da INB em Resende
Etapa 4: a Fábrica de Combustível Nuclear, em Resende (RJ). Foto: INB.

O que o Brasil faz e o que importa

O Brasil faz a mineração, o enriquecimento e a fabricação do combustível, mas não a conversão.13 Em 2025, o país produziu 76 toneladas de concentrado de urânio e importou 248 toneladas.15

O Brasil tem muito urânio: 167.800 toneladas de recursos identificados que podem ser extraídos a menos de 130 dólares por quilo, segundo o levantamento internacional de 2024, com dados de 2023.16 Esse número caiu cerca de 100.000 toneladas numa reavaliação recente.16 A agência brasileira de mineração diz que só cerca de 25% do território foi pesquisado e fala em potencial de 900 mil toneladas com novas pesquisas, uma expectativa, e não uma reserva comprovada; o texto é de cerca de 2008.17

Onde o Brasil está

Capacidade. As duas usinas em operação somam 1.990 megawatts: Angra 1, com 640, e Angra 2, com 1.350, em Angra dos Reis (RJ).6 A capacidade nuclear é a mesma desde 2016.18

Geração. As duas usinas geraram 15.834 gigawatts-hora em 2025, cerca de 2% da eletricidade do país.18 Angra 2 funcionou o ano inteiro, sem parar para trocar o combustível, e bateu seu recorde de geração; Angra 1 parou para recarga e ficou 259 dias ligada à rede.6

Fator de capacidade. Em 2025, o fator de capacidade foi de 100,39% em Angra 2 e de 69,65% em Angra 1, segundo a Eletronuclear.6 Somando as duas, a geração equivaleu a cerca de 91% do máximo.19

Angra 1 e 3. Em 2024, Angra 1 recebeu autorização para operar por 60 anos, até 2044.6 Angra 3, de 1.405 megawatts, está em construção. A Eletronuclear diz que abandonar a obra pode custar até 26 bilhões de reais, mais do que concluí-la; a decisão sobre a conclusão ainda estava pendente.6 O plano da EPE considera Angra 3 operando a partir de 2033.20 Uma resolução do conselho de política energética de julho de 2026 não decidiu a conclusão: só disse não se opor a que bancos públicos analisem a suspensão temporária das dívidas da obra.21

O papel no sistema elétrico

Geração quase contínua. As usinas nucleares funcionam de forma contínua entre as paradas para recarga e manutenção: em 2025, Angra 2 ficou ligada à rede os 365 dias, e Angra 1, 259.6 Em 2025, segundo a classificação do ONS, 84,5% da energia de Angra foi geração inflexível, aquela que a usina declara que precisa fazer, que também seria escolhida pelo custo, e 14,8% foi inflexível fora da ordem de custo.22 Durante um apagão em 2025, a Eletronuclear diz que as usinas mantiveram a operação.6

Quem paga. Desde 2026, a receita de Angra 1 e 2 é paga por todos os consumidores da rede nacional, exceto as famílias de baixa renda, por um adicional na tarifa.23 Para 2026, a ANEEL fixou essa receita em 4,8 bilhões de reais, o equivalente a 361,56 reais por megawatt-hora.24

Geração mensal das usinas nucleares em 2025
Geração de Angra 1 e Angra 2 em cada mês de 2025. Fonte: ONS (fonte 066).
Motivos de despacho das usinas nucleares em 2025
Classificação da geração nuclear de 2025 pelo ONS (fonte 067).

Fontes e método

As informações desta página partem do site Energia Nuclear no Brasil, do mesmo projeto, e foram conferidas nas fontes primárias: Our World in Data, Sovacool e colegas (2016), OMS, agência internacional de energia atômica (relatório sobre Goiânia), UNECE, IPCC, levantamento internacional de urânio de 2024 (Red Book), INB, agência brasileira de mineração, Eletronuclear, BEN, plano da EPE, ANEEL, conselho de política energética e dados abertos do ONS.

  • Onde os números mudaram. O Our World in Data traz hoje 0,03 morte por terawatt-hora para a nuclear; versões anteriores do gráfico traziam 0,07. As páginas atuais da INB não trazem a capacidade de enriquecimento nem a frase de que a conversão é a única etapa que a INB não faz; esta página diz só o que elas confirmam. Os números de mortes do estudo de 2016 por terawatt-hora, de 1990 a 2013, usam outra medida e não foram misturados com os do Our World in Data.
  • Como os números foram calculados. Participação na geração: 15.834 gigawatts-hora divididos pela geração do país. Fator de capacidade do conjunto: geração do ONS em 2025 dividida pela potência das duas usinas multiplicada pelas 8.760 horas do ano.
  • O que ainda falta. O caso internacional do site nuclear (a lição alemã, com dados do Eurostat) não está no acervo e ficou de fora.

Notas

  1. Our World in Data, mortes por terawatt-hora (Markandya e Wilkinson 2007; Sovacool et al. 2016), p. 1 (fonte 060). ↩
  2. UNECE, Integrated Life Cycle Assessment 2022, p. 17 e 59 (fonte 059). ↩
  3. IPCC, AR5, Grupo III, Anexo III, Table A.III.2, p. 7 (fonte 058). ↩
  4. UNECE, Integrated Life Cycle Assessment 2022, Figure 57, p. 88 (fonte 059). ↩
  5. EPE, página Fontes de energia, seção Energia Nuclear (fonte 057). ↩
  6. Eletronuclear, Relatório da Administração e de Responsabilidade Social 2025, p. 1, 2, 4, 6, 9, 17 e 18 (fonte 075). ↩
  7. OMS, Chernobyl: perguntas e respostas, p. 1 (fonte 077). ↩
  8. Sovacool et al., Journal of Cleaner Production 112 (2016), Tables 2, 3 e 4, p. 4 a 8 (fonte 076). ↩
  9. IAEA, The Radiological Accident in Goiânia (1988), p. 14, 21 e 125 (fonte 074). ↩
  10. UNECE, Integrated Life Cycle Assessment 2022, p. 18 e 56 (fonte 059). ↩
  11. Eletronuclear, Relatório da Administração e de Responsabilidade Social 2025, p. 6, 16 e 17 (fonte 075). ↩
  12. UNECE, Integrated Life Cycle Assessment 2022, p. 18 e 101 (fonte 059). ↩
  13. INB, página Ciclo do Combustível Nuclear, p. 1 (fonte 071). ↩
  14. INB, página Produção de urânio, p. 1 (fonte 072). ↩
  15. EPE, Balanço Energético Nacional 2026, Tabela 2.10, p. 45 (fonte 001). ↩
  16. OECD-NEA e IAEA, Uranium 2024 (Red Book), p. 23 e Table 1.2a, p. 24 (fonte 070). ↩
  17. ANM, Economia Mineral do Urânio, p. 4 (fonte 073). ↩
  18. EPE, Balanço Energético Nacional 2026, Tabela 5.3, p. 107, e Tabela I.2, p. 178 (fonte 001). ↩
  19. ONS, dados abertos, geração por usina (2025) e capacidade instalada, cálculo sobre os dados (fontes 066 e 009). ↩
  20. EPE, Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, nota 11, p. 72 (fonte 002). ↩
  21. CNPE, Resolução nº 14/2026, art. 1º, p. 1 (fonte 078). ↩
  22. ONS, dados abertos, geração térmica por motivo de despacho, 2025, cálculo sobre os dados (fonte 067). ↩
  23. Lei nº 12.111/2009, art. 11-A (fonte 020). ↩
  24. ANEEL, Resolução Homologatória nº 3.567/2026, art. 1º e 2º, p. 1 e 2 (fonte 079). ↩