Fontes
Energia hidráulica
- 1,3 morte por terawatt-horacontando acidentes e poluição do ar, é a estimativa para as hidrelétricas reunida pelo Our World in Data.1
- 24 gramas de gás carbônico equivalente por quilowatt-horaé o valor do meio das emissões no ciclo de vida das hidrelétricas, segundo o IPCC; os estudos vão de 1 a 2.200, conforme a usina.2
- De 24 a 42 metros quadrados-ano por megawatt-horaé a terra ocupada por uma hidrelétrica de 360 megawatts estudada pela UNECE.3
As próximas seções explicam, desde o começo, o que esses números querem dizer.
Como funciona

A hidrelétrica usa a força da água dos rios. A água desce, passa pelas turbinas e as faz girar; a turbina gira o gerador, que produz eletricidade. Em termos técnicos, a energia da água parada no alto (energia potencial) vira energia de movimento (mecânica) e, por fim, energia elétrica.4
Há dois tipos principais de usina. As de reservatório têm uma barragem que forma um lago: guardam água no período de chuva para usar na seca. As a fio d'água usam a água conforme o rio traz, sem guardar muito.4 Como uma caixa d'água em casa, o reservatório permite usar depois o que chegou antes.
Há ainda as usinas reversíveis, que bombeiam água de um lago mais baixo para um mais alto e depois a soltam de novo pelas turbinas, funcionando como uma grande bateria.5
Segurança
Para as hidrelétricas, a estimativa é de 1,3 morte por terawatt-hora de eletricidade produzida, contando mortes por acidentes e por poluição do ar. Um terawatt-hora é muita energia: é um bilhão de quilowatts-hora. Na mesma base, a energia solar tem 0,019, a eólica 0,035, a nuclear 0,03, o gás natural 2,821 e o carvão 24,62.1
O número vem de estudos de 2007 e 2016 (Markandya e Wilkinson; Sovacool e colegas), reunidos pelo Our World in Data. Não é um dado específico do Brasil, e a fonte não explica como os rompimentos de barragem entram na conta.1
Emissões
Uma hidrelétrica não queima combustível para funcionar. Mesmo assim, ela tem emissões: no cimento e no aço da construção, no transporte dos materiais e, em alguns lugares, nos gases que saem do lago, como o metano.26
O IPCC, o painel de cientistas do clima da ONU, juntou os estudos publicados. O valor do meio é de 24 gramas de gás carbônico equivalente por quilowatt-hora, mas os estudos vão de 1 a 2.200. A conta inclui usinas a fio d'água e de reservatório. Numa coluna separada, a tabela traz um valor típico de 88 gramas de gás carbônico equivalente por quilowatt-hora para o metano; esse valor não deve ser somado ao valor do meio.2 Na mesma tabela, o valor do meio é de 12 para a nuclear, 11 para a eólica em terra, 48 para a solar em usinas, 490 para o gás natural e 820 para o carvão.2
A UNECE, a comissão econômica da ONU para a Europa, achou de 6 a 147 gramas para as hidrelétricas, e de 6,1 a 11 para o projeto de 360 megawatts que considera mais representativo. Mas essa conta deixa de fora, em sua maior parte, os gases que saem dos sedimentos do lago, que podem ser muito altos em regiões tropicais.6 Por isso os números do IPCC e da UNECE não podem ser comparados diretamente: um inclui o metano do lago, o outro quase não inclui.
A grande variação mostra que cada usina é um caso: depende do clima, do tamanho do lago e do que havia no terreno antes de ele ser alagado.6
Espaço
A UNECE mediu a terra ocupada ao longo de toda a vida das usinas, em metros quadrados-ano por megawatt-hora: a área ocupada multiplicada pelo tempo de ocupação, dividida pela energia produzida. Um metro quadrado-ano é um metro quadrado ocupado durante um ano. Para dois projetos de hidrelétrica, os resultados foram de 24 a 42 (usina de 360 megawatts) e de 8,7 a 15,2 (usina de 660 megawatts). Na mesma medida, a nuclear fica entre 0,52 e 1,02 e a eólica em terra entre 0,6 e 1,2.3
Há um limite importante: a própria UNECE reconhece que o método que usa para avaliar o impacto sobre o solo não tem como caracterizar a transformação de terra em água, que é o que acontece quando a barragem cria o lago.7 O estudo não diz se a área alagada entra nos números de metros quadrados-ano. A UNECE também diz que o formato do rio, do vale e do lago pode fazer o uso da terra variar muito de uma usina para outra.8
Outros impactos
- Peixes. A barragem atrapalha os peixes que sobem o rio para se reproduzir; passagens artificiais podem diminuir o problema.4
- Pessoas. O alagamento pode obrigar moradores a sair e atrair pessoas que vêm trabalhar na obra. Antes de grandes usinas, são feitos estudos de impacto ambiental.4
- Outros usos da água. A água guardada também pode servir para abastecer cidades, irrigar lavouras e permitir a navegação.4
- A bacia. Manter a vegetação perto das nascentes e nas margens ajuda a manter o fluxo de água e a evitar que terra se acumule no rio.4
- Compensação aos municípios. A lei manda pagar uma compensação financeira aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios pelo uso da água para gerar energia. Quando o lago atinge mais de um município, a divisão considera as áreas alagadas. A lei prevê isenção para instalações de até 10.000 quilowatts de capacidade, com uma ressalva para os casos de uma lei de 2013 (Lei nº 12.783).9
A cadeia da fonte
A cadeia da hidrelétrica começa na bacia do rio, com a chuva que enche os rios. Depois vêm a construção da barragem, das turbinas e dos geradores, a operação da usina e as linhas de transmissão que levam a energia. No cálculo da UNECE, que deixa de fora grande parte das emissões do lago, as emissões se concentram no transporte e na construção, e a usina dura muito: o estudo considera 80 anos de vida.10 Os dados desse estudo vêm de dois projetos no Chile, e não de usinas brasileiras.11
O que o Brasil faz e o que importa

O Brasil tem centenas de hidrelétricas em operação. Em outubro de 2026, a ANEEL registrava 216 usinas hidrelétricas de grande porte, 435 pequenas centrais hidrelétricas e 711 centrais geradoras hidrelétricas, as menores.12
A maior parte da energia que o Brasil importa vem de uma hidrelétrica: Itaipu, que o Brasil divide com o Paraguai. Em 2025, o saldo das importações de eletricidade foi de 7,4 terawatts-hora; segundo o BEN, quase toda a energia importada veio de Itaipu.13
Onde o Brasil está
Capacidade. Em 2025, a capacidade instalada das hidrelétricas era de 110.163 megawatts, de um total de 215.939 megawatts no país, sem contar a geração distribuída. Essa conta inclui metade de Itaipu, que tem 14.000 megawatts no total.14
Geração. As hidrelétricas produziram 401.415 gigawatts-hora em 2025, 4,8% menos que em 2024, e responderam por 51,7% da eletricidade gerada no país.15 Somando a energia importada de Itaipu, a fonte hídrica chegou a 52,2% da oferta de eletricidade.16
Fator de capacidade. Dividindo a energia gerada em 2025 pelo máximo que essa capacidade produziria funcionando o ano todo, as hidrelétricas usaram cerca de 42% do seu potencial. O fator de capacidade mostra quanto uma usina produz de fato, comparado ao máximo possível.1415
Onde ficam. As hidrelétricas da rede nacional estão distribuídas por dezesseis bacias hidrográficas, segundo o ONS.17 Em 2025, os estados com mais capacidade hidrelétrica eram o Pará (20.770 megawatts), o Paraná (16.812) e Minas Gerais (12.498).14 As maiores usinas em operação são Belo Monte (11.233 megawatts), Tucuruí (8.535) e a metade brasileira de Itaipu (7.000).12
Como mudou. Cerca de 39% da potência hidrelétrica hoje em operação está em usinas que começaram a operar nas décadas de 1970 e 1980. A década com mais potência foi a de 2010, com usinas como Belo Monte, Jirau e Santo Antônio.12 Em 2025, a capacidade do país cresceu 24,6 gigawatts, dos quais só 0,3 gigawatt de hidrelétricas.15
O papel no sistema elétrico
A chuva manda. A geração das hidrelétricas varia ao longo do ano, porque depende do quanto chove nas cabeceiras dos rios, e pode haver secas.4 O sistema elétrico brasileiro tem predominância de hidrelétricas, e as usinas térmicas são ligadas conforme as condições das chuvas, para poupar a água dos reservatórios e garantir a energia do futuro.17 No balanço do ONS, que mede a geração das usinas da rede nacional operadas por ele, as hidrelétricas responderam por 57,7% da geração em 2025, contra 16,5% da eólica, 13,1% da solar e 12,8% das térmicas.18
Os reservatórios são um estoque. O ONS mede quanta energia está guardada, na forma de água, nos reservatórios da rede nacional. O nível mais baixo da série, desde 2000, foi de 17,8% do máximo, em outubro de 2017. Em 2001 chegou a 22,3%, e em 2014 a 18,8%. Em 15 de outubro de 2026, estava em 59,5%.19
Rapidez. As hidrelétricas são a principal fonte capaz de aumentar ou reduzir a produção rapidamente, a chamada rampa, com cerca de 15 gigawatts por hora disponíveis. Isso ajuda a equilibrar a variação da energia solar e da eólica.20
Quem paga quando falta chuva. Quando chove pouco, as hidrelétricas produzem menos do que o previsto. As usinas dividem esse risco num mecanismo chamado MRE. Uma lei de 2015 permitiu aos geradores repactuar esse risco, com a concordância da ANEEL e pagando um prêmio; na energia vendida no mercado regulado, o risco repactuado passou a ser coberto pela conta das bandeiras tarifárias. Para usinas com concessões renovadas por uma lei de 2013, o risco da energia destinada ao mercado regulado fica com as distribuidoras, com direito de repasse à tarifa.21
O futuro. O plano da EPE prevê que a participação das hidrelétricas na capacidade da rede nacional caia de 47% em 2025 para 35% em 2035, porque outras fontes crescem mais. A expansão prevista é de 7,5 gigawatts, a maior parte em pequenas centrais e na modernização de usinas antigas. Hidrelétricas reversíveis estão entre as opções para guardar energia.22 O BEN registra um potencial hidrelétrico total de 135,4 gigawatts, somando o inventariado e o estimado; esse total inclui as usinas que já operam ou estão em construção, e não é só o que falta aproveitar.23
Fontes e método
As informações desta página vêm do Balanço Energético Nacional e do Anuário da EPE, do Plano Decenal de Energia, dos dados abertos da ANEEL e do ONS, de leis, da página da EPE sobre fontes de energia, do IPCC, da UNECE e do Our World in Data.
- Como os números foram calculados. Fator de capacidade: geração de 2025 dividida pela capacidade de 2025 multiplicada pelas 8.760 horas do ano; a capacidade é a do fim do ano e inclui metade de Itaipu, por isso o valor é aproximado. Armazenamento: soma da energia guardada nos quatro subsistemas dividida pela soma das capacidades máximas, dia a dia, de 2000 a 2026. Usinas: contagem e soma da potência das usinas em operação no cadastro da ANEEL em outubro de 2026.
- Onde os números diferem. O cadastro da ANEEL (outubro de 2026), o BEN (fim de 2025) e o ONS (só a rede nacional, com a geração distribuída no total) medem coisas um pouco diferentes; por isso a participação das hidrelétricas aparece como 51,7%, 52,2% ou outros valores, conforme a base.
- O que ainda falta. Onde são fabricados os geradores e as turbinas das usinas brasileiras: as fontes usadas não tratam disso. Um caso internacional, opcional no modelo das páginas de fonte, não foi levantado.
Notas
- Our World in Data, mortes por terawatt-hora (Markandya e Wilkinson 2007; Sovacool et al. 2016), p. 1 (fonte 060). ↩
- IPCC, AR5, Grupo III, Anexo III, Table A.III.2, p. 7, e Table A.III.1, nota xi, p. 5 (fonte 058). ↩
- UNECE, Integrated Life Cycle Assessment 2022, Figure 57, p. 88 (fonte 059). ↩
- EPE, página Fontes de energia, seções Energia Hidráulica e Fontes renováveis (fonte 057). ↩
- UNECE, Integrated Life Cycle Assessment 2022, seção 3.6.1, p. 51 (fonte 059). ↩
- UNECE, Integrated Life Cycle Assessment 2022, Executive Summary, p. 17; seção 3.6.3, p. 52; seção 4.1.1, p. 59 (fonte 059). ↩
- UNECE, Integrated Life Cycle Assessment 2022, seção 3.6.3, p. 52 (fonte 059). ↩
- UNECE, Integrated Life Cycle Assessment 2022, seção 4.5, p. 64 (fonte 059). ↩
- Lei nº 7.990/1989, art. 1º, 4º, caput e I, e 5º (fonte 054). ↩
- UNECE, Integrated Life Cycle Assessment 2022, seção 4.1.1, p. 59, e seção 3.6.2, p. 52 (fonte 059). ↩
- UNECE, Integrated Life Cycle Assessment 2022, seção 3.6.2, p. 52 (fonte 059). ↩
- ANEEL, SIGA, dados abertos, cálculo sobre os dados de outubro de 2026 (fonte 008). ↩
- EPE, Balanço Energético Nacional 2026, p. 11 e 12 (fonte 001). ↩
- EPE, Balanço Energético Nacional 2026, Tabela 8.4, p. 152, e Tabela I.1.1, p. 177 (fonte 001). ↩
- EPE, Anuário Estatístico de Energia Elétrica 2026, sumário executivo, p. 1 (fonte 014). ↩
- EPE, Balanço Energético Nacional 2026, p. 12 (fonte 001). ↩
- ONS, página O que é o SIN (fonte 016). ↩
- ONS, dados abertos, balanço de energia nos subsistemas, 2025, cálculo sobre os dados (fonte 009). ↩
- ONS, dados abertos, EAR diário por subsistema, cálculo sobre os dados (fonte 053). ↩
- EPE, Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, p. 115 e Box 3.1, p. 102 (fonte 002). ↩
- Lei nº 13.203/2015, art. 1º, caput, §§ 1º e 3º, e art. 3º (fonte 056). ↩
- EPE, Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, p. 93, 95, 96 e 118 (fonte 002). ↩
- EPE, Balanço Energético Nacional 2026, seção 6.1.4, p. 120, e Tabela 6.1, p. 121 (fonte 001). ↩
